15 de maio de 2006

Messenger pra quê, mesmo?

Eu acho engraçado como alguns novos meios de comunicação alteram as pessoas. Um exemplo que me vem sempre à cabeça é do Hugo. Diz ele que o celular criou uma falsa sensação de urgência nas pessoas. De repente, toda ligação se tornou fundamental e ficamos profundamente chateados se alguém pra quem ligamos não atende uma ligação. Se tiver então sem o celular, se torna logo alvo de ódio incondicional. É engraçado notar essa revolta que toma as pessoas quando não conseguem falar com as outras. Há pouco tempo, não existia celular. Você ligava pra casa ou trabalho de alguém e deixava recado. E esperava. E quem não tinha telefone e combinava de esperar junto à um orelhão num determinado horário? Lembro quando telefone fixo era tão difícil que as pessoas os usavam nos negócios. "Te dou meu carro, uma parte em dinheiro e duas linhas telefônicas". E pode ter certeza, essas duas linhas entravam por uma boa quantia.

Lembrei disso porque recentemente minha mãe pegou um trabalho de tutoria de um curso à distância pela internet. Pra dar suporte à turma de alunos, ela tem que usar um fórum do MEC (que por sinal é uma grande merda, além de muito lento), e-mail e o MSN Messenger. No caso, esse último foi o que me chamou mais a atenção. Minha mãe ainda tá aprendendo as "regras de uso do instant messenger". Regras que não estão escritas em nenhum lugar, mas que todos os que já estão acostumados ao uso desse tipo de programa seguem à risca. Por exemplo, ontem iamos sair pra comprar um presente pra minha avó (afinal, ela também é mãe). Nessa hora, uma pessoa da tutoria entrou e minha mãe rapidamente abriu uma janela e comprimentou a tal professora. Na hora eu perguntei por que ela falou com a professora se não teria tempo pra conversar com ela. E pior, se não tinha nada pra falar? Acabei percebendo que, quando eu comecei a usar esses programas, fazia a mesma coisa. Então percebi depois de um tempo que as pessoas nem respondiam mais meus comprimentos. Passei a entender que, se alguém te comprimenta e não introduz nenhum tipo de conversa, a gente simplesmente lê a mensagem e fecha a janela. Não respondemos mais nem por educação. Com o tempo parei de comprimentar todo mundo no messenger, só falo com alguém se tiver algo a dizer ou a perguntar. Ponto. Me dei conta que esse meio de comunicação tornou as conversas estremamente pragmáticas. Quem usa só conversa o que interessa conversar, nada mais. Não perdemos tempo desnecessário, nem espaço das nossas áreas de trabalho com montes de janelas sem que sejam realmente "necessárias". Fiquei pensando que um dia minha mãe fique assim também, pare de comprimentar os outros (até porque acredito que ela vai acabar incomodando alguém que vai deixar isso bem claro). Enquanto eu pensava isso, minha mãe acabou trocando meia dúzia de palavras com essa tal professora e desligou, de cara amarrada, o computador.

Mais à noite, ela estava falando com uma aluna. Uma hora a tal menina (sei lá quantos anos tem a criatura) simplesmente saiu. Nessa hora minha mãe começou a xingar a pessoa que era mal-educada e coisas piores. Eu perguntei se elas estava conversando alguma coisa. Não estavam falando nada já fazia alguns minutos. Falei pra minha mãe que era normal, a conversa já tinha acabado. Ela não pareceu muito feliz, mas acho que um dia ela vai acabar entendendo. Eu acho curioso é esse novo conceito de "educação". Os usuários desses programas estão criando um novo código de conduta, muito mais flexível que o tradicional. Quando encontramos alguém na rua, comprimentamos, nem que seja com um aceno rápido. No mundo do instant messeger, não estamos nem ai. Deixamos como está. As despedidas também não são mais obrigatórias, a não ser que se deseje encerrar uma conversa que não tem cara de que vai acabar tão cedo. Refletindo sobre isso, penso em algumas outras situações nas quais a tradicional boa-educação não se aplica. Em alguns momentos inclusive chega a incomodar. Mas incomoda por quê? Por que ficamos chateado com aquele mané que vem falar conosco, mas não tem nada a dizer? Quando foi que ficamos tão "ocupados"? Ocupados com o quê? Nessas horas chego a querer parar de usar essas porcarias, mas fazer o quê? Já fazem parte da minha vida agora.

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