10 de outubro de 2004

Os desenhos devem ser competentes, já a história tem que ser incrível

Depois de ler quadrinhos por vários anos e ter visto vários títulos nascerem e morrerem (especialmente os nacionais), cheguei a uma conclusão sobre o porquê e sintetizei essa teoria num "princípio": o desenho vende a primeira edição, mas só o roteiro vende a segunda. Lógico que não se pode aplicar isso na prática ao pé da letra. Entretanto, após compreender a "teoria", a frase passa a fazer um grande sentido (pelo menos pra mim).

É preciso entender, ao fazer quadrinhos, que o leitor não tem ou não pretende gastar seu dinheiro com qualquer porcaria. Sim, há títulos publicados, ou até mesmo alguns fanzines, que não se resumem a mais nada além de papel mal gasto. O leitor, seja ele um fã assíduo ou um leitor eventual, tem seu primeiro contato com o gibi por meio da visão. Nesse momento, seu cérebro busca entre as opções disponíveis a que de melhor qualidade lhe parecer.

Dificilmente ele poderá ler a história (ou parte dela) para saber se aquele gibi é melhor que o outro ao lado. Na melhor das hipóteses, ele poderá dar uma folheada rápida em busca de algum elemento que lhe seja interessante. É nesse exato momento que o desenho pode fazer toda a diferença! Primeiro, porque o leitor vai folhear aquele gibi que tiver o desenho que mais lhe agrade ou chame a atenção. Segundo, porque ao folhear a revista, o leitor passará por várias páginas em um pequeno intervalo de tempo. Se o desenho mostra as idéias contidas no roteiro com clareza, mesmo nesse breve instante, o leitor será capaz de decodificar a ação contida naquela história e, mesmo sem ler nenhum diálogo, saberá o que conta aquela revista, se o tema lhe agrada (ou parece agradar) e se pretende comprá-la.

Vale fazer uma pequena interrupção no nosso texto para explicar que, no que se refere a desenho, não quero dizer que toda revista tenha que ter desenhos geniais ou que só há espaço para publicações com ilustrações de alto nível. Bom desenho não traz embutida nenhuma idéia pré-concebida sobre o que é bonito ou feio, interessante ou não. Um cartunista com traço super simples e incrivelmente sintético pode passar idéias, às vezes, mais complexas do que um artista munido de bico de pena, tinta e pincel, photoshop ou qualquer outro instrumento e técnica que possam existir.

Me refiro sempre a essa capacidade de transmitir uma idéia por meio de um desenho (associado ou não à um diálogo) por mais simples que esse seja. Não importa se o desenho é realista, estilizado, caricato ou de qualquer outra forma que ele possa se apresentar. O importante é a capacidade de passar a idéia na integra, de forma clara e simples. Se um artista tem essa capacidade somada a um estilo próprio (ninguem gosta de gente que só sabe copiar os outros), então é o artista ideal para fazer quadrinhos.

De volta à "teoria", quando me refiro à "segunda edição", não me refiro necessariamente ao número que sucede o primeiro. Na verdade, a "primeira edição" podem ser algumas. É preciso compreender acima de tudo que o leitor busca algo novo ao ler uma revista, mesmo que sejam alguns momentos de entretenimento rápido e descompromissado.

O leitor tem expectativas e esperança sobre a revista que por algum motivo decidiu comprar. Quando ele compra a primeira (que não necessariamente tem que ser a número 1), ele espera algo daquela revista. Se essa revista não o satisfaz em nada, ele a descarta e se arrepende o dinheiro/tempo mal gasto. Se essa revista parece ter algum potencial, ele compra mais um número e talvez mais um outro, mas não mais do que isso, para ver se a história melhora ou pelo menos vai para algum lugar.

Essa é a chance que existe para conquistar um leitor. Se depois disso as perspectivas não melhoram, ele desiste daquela revista e busca outra forma de investir seu dinheiro.

Por isso, quando digo que o desenho (ou melhor a arte) de uma revista é o que vende a primeira edição, quero dizer que o desenho tem como missão trabalhar a favor da história. Entretanto, se essa não for boa, não há desenho que salve a revista de se tornar mais um fracasso retumbante. E isso tem acontecido com freqüência no mercado de revistas nacionais. O que se vê na maioria dos casos são gibis com desenhos bacanas (quase sempre copiados de algum figurão estrangeiro) e histórias medíocres!

Se após ler esse texto alguém tiver entendido o que eu quero dizer e, antes de fazer sua próxima (ou porque não sua primeira) revista em quadrinhos, procurar criar uma boa história, com bons personagens e situações cativantes e não somente se preocupar com os desenhos, então o texto já serviu ao seu propósito.

3 comentários:

Anônimo disse...

;O)
é isso aí!!!
bjo

Anônimo disse...

Falou e disse!

T+,
Mário

Anônimo disse...

Você me fez lembrar da década de 90, quando as editoras investiam em super-heróis por serem "o que vendia". Justamente o que está acontecendo com vários mangás atualmente. E que rolou com quadrinhos de terror no passado.

(escrevi uns três parágrafos mas fugi do assunto! >_<)

Enfim, essas ondas de manias passam mas é a qualidade que você se refere no texto que mantém os artistas no mercado. A história tem que levar o leitor a outro mundo, agradá-lo de alguma forma, senão qual o sentido de comprar algo que o acrescenta nada?